
XXIX ENCONTRO SOCINE
03 a 06 de novembro de 2026
Universidade Federal da Bahia
Fins do mundo, mundos sem fim
Diante dos incontáveis fins do mundo, desejamos reinventar mundos sem fim.
Hoje, não é apenas um fim do mundo que nos assombra, como uma possibilidade sombria de futuro cada vez mais evidente no presente, em geral, e nas diversas modalidades de experiência do cinema e do audiovisual, em especial, como nas diversas encenações e testemunhos da destruição do cosmos e do comum que frequentemente ocupam as telas que nos cercam. São também incontáveis fins do mundo que nos tocam a partir do passado e vêm habitar as memórias e esquecimentos sedimentados na história do cinema e do audiovisual: para que se formasse este mundo que ansiosamente imaginamos perder (ou lamentamos como já perdido), foram muitos os fins do mundo perpetrados em nome das próprias aspirações do projeto moderno, em sua expansão colonial sobre a multiplicidade do cosmos e a pluralidade do comum.
Diante das imagens de progresso, emancipação, desenvolvimento, paz ou qualquer outra palavra de ordem do projeto moderno e de suas derivações contemporâneas, que dissimulam a violência constitutiva de sua expansão global, é preciso ir além da imaginação apocalíptica, que oferece somente a reiteração de um fim do mundo como reflexo invertido dessas imagens. Ali onde se projetava o controle do universo, agora se apresenta a irreversibilidade das transformações da biosfera terrestre, recorrentemente noticiada com imagens aéreas ou testemunhos localizados da devastação, encenada como catástrofe avassaladora, ou talvez confrontada na resistência partilhada em comunidade e em redes de ativismo. Ali onde se programava a paz soberana de um sistema interestatal, persistem contudo a devastação da guerra total e os fantasmas do apocalipse nuclear, frequentemente entrevistos ou imaginados como risco irredutível e fatalidade previsível, seja em narrativas ilusoriamente simples ou em tramas opacas em sua complexidade, ou ainda em vislumbres enganosamente distantes de mísseis atravessando céus alheios (mas há céus que sejam efetivamente alheios?). Ali onde se anunciava a dignidade universal, parece restar apenas a desagregação ou a impotência de uma ordem mundial baseada em sonhos humanistas e aparatos humanitários, cujos sentidos se mostram definitivamente esvaziados pelo avanço do fascismo e pela captura técnica e tecnológica da política.
As imagens do fim do mundo se confundem com uma espécie de fim da imagem, ao menos em sua configuração técnica baseada, de modo geral, na câmera escura, no contexto da emergência de modelos do que se chama agora de Inteligência Artificial Generativa (IAG) e que em seu ímpeto cada vez mais acelerado de sintetização imagética nos entrega vistas impossíveis, impensáveis, absolutamente banais e cotidianas, crescentemente indistinguíveis das imagens-câmera.
Outrora um lócus privilegiado do experimentalismo e da liberdade figurativa nos filmes sem câmera de Brakhage, McLaren e Lye, agora o que Lev Manovich chamou de imagem probabilística é tão somente uma aproximação de uma mediana estatística, como argumenta Hito Steyerl, de todo acúmulo histórico de visualidade disponível digitalmente.
Trump e Elon Musk deitados ao sol em um resort pós-apocalíptico em Gaza, um simulacro de programa de auditório apresentado por uma mulher de maiô e uma sintetização de uma briga de 100 homens contra um urso, entre tantos outros exemplos possíveis, são expressões de um esvaziamento radical da imagem que se torna destituída de qualquer causalidade. Seria o fim da imagem trazido pela sua própria saturação?
Para ir além da ansiedade catastrófica e dos afetos tristes dessa imaginação apocalíptica, precisamos, como sugere Ariella Azoulay, desaprender a ordem imperial que funda o mundo moderno na separação de seus elementos, sujeitos e objetos, para tornar possível reconhecer que partilhamos uma herança: é cada uma e cada um de nós que se encontra interpelado pelas memórias e esquecimentos de incontáveis fins do mundo, que são também inumeráveis outros mundos possíveis. Quando Mayara Ferrão, em seu Álbum de desesquecimentos, ou Felipe Rivas San Martín, em Un archivo inexistente, mobilizam ferramentas de IAG para fabular arquivos de afetos historicamente invisibilizados, são algumas das memórias e esquecimentos constitutivos dessa herança que nos interpelam. Ao mesmo tempo, enquanto o extrativismo constitutivo do projeto moderno converte o mundo – inclusive parte significativa da história do cinema e do audiovisual – em dados para treinar sistemas de IA, outras maneiras de imaginar o comum se insinuam em experiências audiovisuais baseadas em outras relações com a terra e seus habitantes multi-espécies, desde o Coletivo Mbya-Guaraní de Cinema até o Karrabing Film Collective, entre outros.
Desejamos que o encontro da Socine em Salvador seja uma ocasião para insistir em maneiras de pensar, praticar, estudar e experienciar o cinema e o audiovisual com base na elaboração de relações entre mundos (naturais, culturais, ficcionais etc.) e na recusa da imaginação apocalíptica que consagra, como um reflexo invertido, o projeto moderno, ao mesmo tempo que parece apenas revelar seu fim, o fim do mundo aí construído. Reivindicamos “o fim do mundo tal como o conhecemos”, como escreve Denise Ferreira da Silva, para confrontar a “imagem do texto moderno d’O Mundo como um todo composto de partes separadas, relacionadas através da mediação de unidades de medida constantes e/ou de uma força violenta limitadora” e para “dissolver a ideia de coletividades humanas como ‘estrangeiras’ com os atributos morais fixos e irreconciliáveis que as diferenças culturais engendram”. A partir do fim deste mundo, talvez seja possível reinventar mundos sem fim: nem eternos, nem infinitos, mundos indeterminados, sem um fim pré-estabelecido ou uma finalidade dominadora, abertos ao contato entre mundos e à metamorfose do mundo que partilhamos.